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Comunicação Interna 30.09.2020

Engajar é preciso. Mas até onde vão os esforços nesse sentido com o burnout batendo à porta dos seus colaboradores?

“A Síndrome de Burnout, ou Síndrome do Esgotamento Profissional, é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, sofrimento psicológico, estresse, cobrança excessiva, esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante. Pode resultar em depressão e outros acometimentos para a saúde”, nos conta a psicóloga Elaine Terceiro, consultora da Mais Diversidade.

Em 2019, a Síndrome foi incluída na 11ª Revisão de Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno ocupacional. O relato de Paulo, nome fictício dado ao personagem real dessa matéria como forma de preservar sua identidade, se encaixa perfeitamente na descrição feita por Elaine sobre os sintomas de burnout.

Paulo trabalha há mais de cinco anos numa empresa que lida com projetos de consultoria. É um ramo dinâmico, que exige rapidez e mudanças repentinas. Ele estava habituado a esse ritmo e sempre gostou de trabalhar lá. Porém, ao ser transferido de departamento, em 2019, sua vida virou um verdadeiro caos, conta.

Paulo nos revela que estava sempre irritado, tinha taquicardia frequente, acordava à noite angustiado. “Quando eu via que estava chegando a hora de ir para o trabalho, a angústia e a ansiedade aumentavam. Eu não sabia explicar de onde isso vinha. Sempre acompanhada de um sentimento de incompetência imenso”, recorda.

Tal sentimento de incompetência, conforme explica Elaine, está ligado aos sintomas de burnout: “o indivíduo se sente ainda mais cobrado por não conseguir ter sua capacidade laboral plena e isso só aumenta seus sintomas”.

 

Quando o trabalho transborda para a vida

 

Assim que foi transferido de departamento, Paulo se deparou com uma carga de trabalho maior, porém era uma condição nova e isso o mantinha engajado com as tarefas.

Só que o engajamento inicial, que se manifesta quando a pessoa se dedica física, cognitiva e emocionalmente durante a realização de uma tarefa, segundo a literatura sobre comportamento organizacional, se transformou em um sentimento de insegurança e incerteza constantes.

O médico psiquiatra que cuidou de Paulo usou a seguinte analogia para explicar o que estava acontecendo com ele quando a crise aguda se manifestou. “Imagina aquela situação em que o refrigerante extrapola os limites do copo e transborda. É isso que acontece quando a pessoa leva a angústia do trabalho o tempo todo com ela. O estresse se descolou do trabalho e invadiu a sua vida”, disse o médico.

O que aconteceu com Paulo pode estar intimamente ligado a as três condições necessárias para que haja o engajamento positivo das pessoas na realização do trabalho, sem que isso se transforme em burnout, segundo William Kahn, um dos principais estudiosos sobre engajamento.

 

  • A primeira delas tem a ver com o significado, ou seja, se aquilo que fazemos importa para nós mesmos e para a empresa.
  • A segunda está ligada à segurança. As pessoas precisam estar seguras de que têm a competência necessária para a execução da tarefa.
  • E a terceira esta ligada à liderança. Líderes engajadores são aqueles que sabem exigir, mas ao mesmo tempo exercem o papel de coach junto às suas equipes.

 

O papel da liderança no afastamento social

 

Para Elaine, muitos líderes ainda utilizam o mecanismo de comando-controle na relação com suas equipes. “Nos dias de hoje, em que o trabalho em home office se tornou comum, alguns gestores acabam realizando reuniões em excesso, exercendo muitas cobranças, pedidos de relatórios, e isso pode gerar impacto direto nas pessoas que se ocupam mais em reportar tarefas do que na realização das tarefas em si, além do sentimento de insegurança e jornadas de trabalho além do habitual”, comenta.

 

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Elaine Terceiro: Vivemos em um mundo repleto de demandas e por vezes esquecemos de olhar nossas vulnerabilidades e humanidade

 

O certo, segundo a psicóloga, é quando o líder consegue desenvolver um ambiente de segurança psicológica, no qual as pessoas não tenham medo de errar, possam falar abertamente o que pensam e possam contar umas com as outras para fazer um trabalho de qualidade, num espaço colaborativo e que tenham claro seus papeis individuais e o propósito que as une, respeitando o timing de cada uma e investindo no desenvolvimento das pessoas.

Mas não era assim que as coisas aconteciam no novo departamento onde Paulo foi transferido. “Era comum, faltando uma hora para o fim do expediente, o projeto em que eu tinha trabalhado o dia inteiro ser considerado inadequado e eu tinha que começar do zero. E aí eu vivia o tempo todo com o sentimento de  ansiedade misturado com angústia ao pensar como seria o projeto do dia seguinte. Daí eu pensava: “Será que o que eu fazendo está sendo satisfatório para a empresa?”

 

 

 

 

Após receber o diagnóstico de crise aguda de estresse compatível com burnout, Paulo foi afastado por três semanas e tomou remédios antidepressivos.  “Quando me ligaram dizendo que eu poderia mudar de departamento minha vontade foi sair do afastamento e voltar a trabalhar na hora, mas o médico achou melhor eu cumprir o tempo designado para me recuperar completamente. Hoje estou bem, mas continuo preocupado com os colegas que ainda atuam no departamento que me causou burnout.

 

 

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